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Sobre a ansiedade

Parece que atualmente vivemos uma epidemia de ansiedade. Como sou uma das pessoas afetadas por este desconforto, fui obrigada a perceber melhor este assunto. Segue a minha história e aquilo que aprendi, pode ser útil a outras pessoas.

De há uns anos para cá comecei a ter sintomas físicos estranhos. Coração acelerado por tudo e por nada, tremores, picos de tensão, quebras de tensão, palpitações ligeiras, depois palpitações fortes chegando então a episódios de falta de ar. Uma pessoa amiga fez-me crer que isto estava relacionado com ansiedade, lembro-me do meu espanto, tal coisa nunca me tinha passado pela cabeça...
Como não é nada divertido viver assim comecei então este processo de aprender o que é a ansiedade e o que tenho de fazer para recuperar desta situação. Li um livro chamado "300 mil anos de ansiedade" do Gustavo Jesus. Recomendo. Com este livro aprendi várias coisas sobre a ansiedade, que vão ocupar os próximos parágrafos deste texto:

Há 300 mil anos o homem primitivo já sentia ansiedade. Ansiedade é uma resposta do nosso corpo face uma situação de perigo com o objetivo de se proteger e de sobreviver a essa ameaça. No livro o autor usa repetidamente o exemplo do Leão. Se o homem primitivo se cruzava com um Leão, um sinal de alerta é emitido ao cérebro - a ansiedade faz o seu papel. O cérebro, por sua vez, desencadeia um conjunto de ações no corpo que vão ajudar este indivíduo a safar-se do Leão: adrenalina é bombeada para o corpo todo e provoca tremores, sangue para os músculos, batimento cardíaco acelera, é para fugir e correr!

Ora, se a ansiedade existe desde o tempo do homem primitivo e se se manteve enquanto uma característica vantajosa para a sobrevivência da espécie, não sendo eliminada ao longo do tempo nessa filtragem da evolução da espécie, deve ser porque serve para alguma coisa. Hoje em dia não é muito provável que nos cruzemos com um Leão na rua mas de facto dá jeito reagir rapidamente (e sem sequer pensar) a alguma eventual situação de perigo, de facto o cérebro adianta-se nessa resposta do corpo com o objetivo da sobrevivência.

O problema é que ter uma conversa com alguém, estar atrasado para um compromisso ou até mesmo estar parado a olhar para o ar não é uma situação ameaçadora, mas hoje em dia os nossos cérebros facilmente interpretam uma situação normal do dia a dia como uma ameaça e um perigo.

Pois é. Então sentimos ansiedade quando não existe um perigo. A "peça" que se encontra entre o cérebro e a medula óssea (agora não me lembro do nome), responsável por interpretar "o perigo" vai erradamente informar o cérebro que é preciso fugir de um Leão (imaginário). E o cérebro faz o seu papel, desencadeando os sintomas já conhecidos da ansiedade. Estes sintomas para além de serem desconfortáveis vão potencialmente dar origem a problemas de saúde, já que o nosso corpo não aguenta este estado de ansiedade em permanência, como problemas de estômago (o organismo não vai desperdiçar energia em fazer a digestão quando estamos a fugir do Leão), cardíacos (demasiado esforço durante demasiado tempo), de fertilidade (hormonas reprodutivas não são produzidas quando interessa é fugir), entre outros, então diversas doenças surgem e pelo que tenho vindo a perceber os sintomas que vão surgindo deste modo constante de "alerta" variam muito de pessoa para pessoa.
A boa notícia é que somos capazes de nos curar disto, mas vamos ter de trabalhar para isso.

Para já, acho que muitos de nós sofremos com ansiedade e nem nos apercebemos. Os meus sintomas físicos não foram o início da minha ansiedade, foram o pico. A ansiedade já existia na minha cabeça sem eu saber.

Demorei alguns anos, mas felizmente encontrei os livros certos e a informação certa, que me ajudaram imenso. A parte mais importante só descobri há cerca de um ano e foi o que realmente me ajudou, mas vou deixar essa parte para o fim.


- PRIMEIRO - A disfunção dos dias de hoje dos nossos cérebros que nos leva a sentir ansiedade desnecessária - sim a ansiedade é uma disfunção das estruturas cerebrais que comunicam entre si, ou seja é uma desregulação do sistema de alarme do nosso cérebro - é um desiquilíbrio químico, relacionado com os ácidos que são produzidos naturalmente pelo organismo.

Não se deve dizer a uma pessoa com ansiedade ou depressão que precisa é de respirar fundo e de tirar umas folgas pois estão a desvalorizar aquilo pelo qual essa pessoa está a passar. Claro que uma folga pode ajudar a relaxar, mas o problema é químico e não deve haver vergonha alguma (pelo contrário acho que exige coragem) de procurar ajuda e em alguns casos de tomar medicação - químicos - que vão compensar esse desiquilíbrio. Suplementos, ansiolíticos, antidepressivos, interferem quimicamente com o nosso cérebro.

Em algumas situações será necessário recorrer a medicação orientada por um médico, pois essa medicação - esses químicos - podem ajudar a regular o cérebro. Várias pessoas dizem-me que foi o melhor que fizeram e sentem-se muito melhor - e acredito.

Outros suplementos - Ómega-3, Magnésio, GABA e outros que promovam o aumento da produção de serotonina, também vão interferir com estes processos químicos, ou seja, são químicos numa versão mais ligeira.

Em qualquer dos casos o objetivo é regular as estruturas químicas do cérebro. Quero com isto dizer que isto não é um problema "imaginário", "da nossa cabeça", não; é fisico e deve ser encarado e tratado como tal.

Não sei dizer quais são as situações que requerem antidepressivos, a minha poderia ser uma delas mas até agora não foi. Receitaram-me ansiolíticos algumas vezes ao longo dos anos mas recusei-me sempre a tomar. Há 2 ou 3 anos atrás o cardiologista receitou-me bloqueadores beta, que "ajudam o coração a bater mais devagar, reduzem a pressão arterial e protegem o coração dos efeitos nocivos da atividade prolongada da adrenalina". Nunca cheguei a tomar este medicamento, na altura pensei que tinha mesmo de encontrar uma alternativa, em vez de tomar um comprimido "provavelmente para o resto da vida" (Sim, foi o que o médico me disse) já que isso ainda me assustava mais.

Então esforcei-me para descobrir outra forma de resolver isto, sem ter a certeza se estava a fazer o mais correto, às vezes pensava que não aguentava mais as palpitações e o desconforto, ponderava ir a um psicólogo, que me enviaria a um psiquiatra... outras vezes ía ver a data de validade da receita do medicamento que o cardiologista me tinha dado... Mas acabava sempre por aguentar, e procurar uma alternativa que fosse para mim mais sustentável. Não sei do que é que tenho mais receio: começar o antidepressivo, ou deixar de o tomar, tudo isto confiando cegamente num médico que supostamente sabe o que é melhor para mim... Não bate certo...

Nesta altura andava a tomar suplementos de Ómega-3, Magnésio e valeriana da farmácia (Valdispert). Desta forma, estava a tratar os sintomas da ansiedade, mas só estava a disfarçar o problema.

- SEGUNDO - Os sintomas terão sempre de ser tratados, mas se não orientarmos as nossas ideias e a nossa mente - os bastidores da ansiedade - não estamos a resolver a nossa situação.

Esta é a chave. Podemos aliviar os sintomas da ansiedade, cheguei a aumentar a dose (significativamente) de valeriana, e isso aliviava bastante o dia a dia, mas para tratar a ansiedade temos de curar-nos a nós e os nossos pensamentos.

Ou nos orientamos sozinhos, e conseguimos modelar a nossa realidade de forma a não sermos tão afetados por ela (na minha opinião, acreditar que existe um Criador disto tudo e estar a par do plano maior do Universo ajuda) ou procuramos ajuda e falamos com um psicólogo ou psicoterapeuta, que podem ajudar-nos a dissolver crenças não benéficas (às vezes relacionadas com o passado e nem fazemos ideia).

Mesmo assim, a parte química do cérebro também tem de ser "reparada". Conheço uma pessoa que me contou a história dela e da sua ansiedade. Esta pessoa, após ter-se divorciado, tinha a vida em ordem, ideias no lugar e sentia-se finalmente em paz. Um dia estava à mesa com os dois filhos pequenos e deu-lhe de repente um "não consigo fazer isto". Seguiu-se um ataque de pânico, voltou a contactar a médica e retomou a medicação, porque apesar de já ter as ideias em ordem, quimicamente o cérebro ainda não estava em ordem.

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Então temos duas frentes:
1 - Equilibrar quimicamente o cérebro
2 - Orientar os pensamentos
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Enquanto tentamos resolver o verdadeiro problema, como já disse, podemos aliviar os sintomas. As primeiras muletas a que recorri foi a valeriana (comprimidos de venda livre da farmácia) e que continuo a ter sempre comigo... Depois uma amiga enfermeira sugeriu-me um suplemento chamado "calm-life" à base de plantas calmantes, tomei 6 por dia durante vários meses e acho que foi o que me segurou. Os florais de Bach "SOS Rescue" esse frasquinho anda sempre comigo, porque é bom saber que se ficarmos mais aflitos temos algo que nos vai ajudar no bolso, isso transmite segurança e acalma. Óleo essencial de alfazema para os pulsos pois esse cheiro é calmante. Por fim pastilhas elásticas, tem um impacto mínimo mas reconheço que ajuda.

Também percebi que entre Junho e Outubro, mais ou menos, é quando a ansiedade se manifesta mais, pelo menos no meu caso. Uma pessoa explicou-me que na medicina chinesa o fogo está ligado à mente e ao cérebro, por isso nos meses mais quentes, quando o Sol está mais próximo, tudo o que está ligado ao cérebro e à mente fica aumentado. Todos os anos reparo nisto, este ano estou curiosa para ver como vai ser...
(Update 2026: no pico do problema, aumentei a dose de valeriana e era a única coisa que ajudava.)

Existem outras soluções não medicamentosas que podemos usar para que o problema não se agrave. Se calhar todos devemos ter isto em conta de forma a que o nosso estado mental tenha mais saúde e menos probabilidade de cair na armadilha destes dias que é a ansiedade. Já me receitaram ansiolíticos algumas vezes, outros medicamentos também, sempre resisti, não sei se fiz bem (confesso) mas sou teimosa e tenho noção que esse recurso existe (e ainda bem), é bom saber que ele existe mas enquanto não estiver naquele ponto "não me interessa só quero que esta tortura acabe" vou resistir. Já lá estive mas voltei logo e foi uma chapada na cara:

Será que estás a fazer tudo o que está ao teu alcance para seres saudável?

Não estava. Agora faço um esforço maior para isso.
Foram estes os recursos que usei inicialmente, não me resolveram o problema mas seguraram-me e deram-me tempo para perceber melhor o assunto.

Antes de avançar, acho que importa perceber melhor certos mecanismos do cérebro. Sobre a depressão: Outra coisa curiosa que aprendi ao ler o livro que estava a falar. A depressão, assim como a ansiedade, acompanhou o homem primitivo até aos dias de hoje. Porque existe alguma "utilidade" na sua existência, portanto. No exemplo do Leão, mais uma vez, o que é que acontece: Se o homem primitivo não conseguir fugir do Leão (se estiver encurralado, por exemplo) vai ter que lutar com ele. Das duas uma: ou morre, ou fica ferido. Ficando ferido, o corpo emite sinal ao cérebro para atuar sobre essa ferida, repondo os tecidos da pele e combatendo uma eventual infeção. Quando o cérebro recebe esse sinal e as moléculas inflamatórias são "ativadas", o comportamento do indivíduo é também alterado de forma a colaborar com esse tratamento da ferida: deixa de ter vontade de fazer seja o que for, não tem paciência para nada nem ninguém, basicamente entra num estado depressivo. Txaram. 

Porque é que a ansiedade e a depressão muitas vezes andam juntas? Porque quando o homem primitivo sabe que vai ter que lutar com o lobo: alarme, ansiedade entra em ação e informa as células inflamatórias antecipadamente que provavelmente vai ser preciso reparar uma ferida, então essas células entram em ação incluindo na mudança de comportamento... Então um estado de ansiedade pode levar a um estado de depressão. Achei isto curioso e já se vai perceber porquê.


Controlo da ansiedade ou estratégia preventiva:

Ocupar o pensamento / distrair dos eventos que possam provocar ansiedade
Isto vai diminuir emoções negativas e gerar emoções positivas.
Ter um hobbie ou passatempo pode ajudar muito. Se conseguirmos começar a criar algo (seja com o barro, com tintas, com tecelagem, nem que seja a pintar cadernos infantis experimenta!) estamos focados nesse momento. Quantas vezes vêm à cabeça imagens de acontecimentos que podem vir a acontecer, de acidentes com familiares, situações de pânico, tudo criado pelo medo, os pequenos demónios a quererem tomar conta de mim, mando-os logo embora, vou logo para a cerâmica vejo o pincel a escorregar a tinta a preencher a superfície a cor a surgir, imagino algo que me entusiasme fazer. O medo vai fora e fica o amor, a aceitação, a entrega.
Ao mesmo tempo o que faço é:

Respirar pela barriga
- Objetivo: aumentar o tempo em que se está a expirar em detrimento do tempo a inspirar. Ao fazer isto, as proporções de oxigénio e dióxido de carbono disponíveis no nosso sangue são alteradas, o que dá ao cérebro sinal para acalmar.
- Aumenta a atividade do sistema nervoso parassimpático (sistema "consciente" e que controlamos, que está mais ativo quando expiramos) sobre o simpático (sistema autónomo envolvido nas respostas automáticas de stress, ou seja o sistema que liga os alarmes todos sem a gente controlar).

Fisicamente, ser o mais saudável possível. Toda a inflamação (excesso de peso, fumo nos pulmões, alimentos processados, falta de água) é um stress para o corpo e essa inflamação vai ativar as tais moléculas inflamatórias e mandar abaixo um bocadinho da nossa alegria de viver. Isto relaciona-se com aquilo que foi explicado há pouco sobre a depressão.

Exercício físico. Para além de distrair e gerar emoções positivas, o exercício físico:
- Liberta endorfinas (substâncias produzidas pelo cérebro que resultam numa sensação de prazer)
- Reduz moléculas inflamatórias que propiciam a ansiedade
- Produz sintomas físicos semelhantes aos da ansiedade MAS associados a experiências agradáveis e não ameaçadoras, criando habituação aos sintomas.
- Dá ao corpo possibilidade de usar os recursos biológicos que o sistema de alarme mobilizou e disponibilizou (aumento da frequência cardíaca e respiratória, adrenalina, músculos) o que resulta num alívio da ansiedade.
Gostava de poder convencer os outros de como isto é mesmo verdade. Às vezes parece shá-lá-lá, ou eu pensava que era até ver que funciona. Falta de tempo não é desculpa, eu arranjei tempo quando isto passou a ser uma PRIORIDADE.

Nutrição. Não vou falar aqui sobre como alimentos processados são veneno, enquanto que frutas, legumes e leguminosas fazem bem, isso tudo é óbvio e mais vale metermos na cabeça de uma vez por todas que somos o que comemos.
- Ómega 3, Vitamina D e Magnésio são bons suplementos a considerar começar a tomar, têm ação anti-inflamatória e têm ação no cérebro, podem pesquisar melhor.

Ervas. Nunca acreditei muito no poder dos chás mas com este estudo percebi que a ansiedade é um distúrbio físico, relacionado com os químicos que existem no cérebro (ou estão em falta, neste caso).
O GABA é um ácido neurotransmissor (mensageiro químico) produzido naturalmente pelo organismo, assim como a serotonina. Transmite informações de neurónio em neurónio, regulando o sistema nervoso.
A baixa libertação de GABA está associada a distúrbios mentais, como a ansiedade. Os medicamentos têm como função potenciar a ação do GABA no sistema nervoso.
Existem ervas que têm este papel, assim como outros benéficos para o combate da ansiedade:
- Passiflora
- Camomila
- Valeriana
- Erva de S. João (bom para depressão, tomar durante 5 dias quando se está em baixo)
- Cidreira
- Hortelã

Hoje falaram-me (mais uma pessoa com antecedentes de ansiedade e depressão) de consultar um endocrinologista e pedir-lhe para fazer análises a todas as hormonas relacionadas com ansiedade. Basicamente ficamos a saber o que é que está em falta e descompensado e facilita a correção. Achei uma boa dica.

Quando escrevi este texto não tinha a certeza se me safava com esta estratégia sem medicamentos, os sintomas tinham melhorado - o suplemento de GABA acho que teve um forte impacto positivo - e sentia-me melhor, mas sem garantias nem certezas.

Passou-se mais de um ano e entretanto fiz, a meu ver, a grande descoberta.

Para já, sim, fui ao endocrinologista, gastei um balúrdio em análises às hormonas para ficar a saber que está tudo bem, e aprendi que o cortisol e a adrenalina estão muito ligados; alta produção de cortisol leva também ao aumento de adrenalina. Tenho este assunto mais ou menos a meio, falta-me aprender mais sobre isto.

Já sabia que:
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Temos duas frentes:
1 - Equilibrar quimicamente o cérebro
2 - Orientar os pensamentos
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Mas não tinha a noção de como é tão importante a questão dos nossos pensamentos. Os nossos pensamentos vão ajudar o cérebro a produzir diferentes tipos de hormonas, e a não produzir outras hormonas. Estas hormonas também fazem parte do equilíbrio químico do cérebro! Então os nossos próprios pensamentos são responsáveis pelo equilíbrio ou desiquilíbrio dos tais químicos que regulam o cérebro!

Por isso é que há pessoas que tomam medicação para regular a parte química do cérebro, mas se não trabalham a questão mental - por si sós ou com ajuda de um psicólogo ou psicoterapeuta - os pensamentos vão continuar a dificultar a recuperação do equilíbrio a nível cerebral.

Por outro lado, há pessoas que mudam radicalmente de vida ou fazem alterações significativas no modo de pensar e passam a sentir-se melhor. Porque os seus pensamentos, gradualmente, foram possibilitando a reabilitação do cérebro. Claro que existem diferentes casos, mas isto serve para dizer que não basta esperar que os suplementos ou medicamentos resolvam o problema, nós também temos de trabalhar para isso.

Se me dissessem isto há um ano, seria uma desilusão. "Sim, ter pensamentos positivos e não ter preocupações para ti deve ser fácil, mas para mim não... como é que queres que eu faça isso?"

Aqui entra, finalmente, aquilo que para mim foi a grande descoberta: um psicoterapeuta fantástico chamado Eckhart Tolle. Existem vários vídeos no Youtube onde ele explica muito bem o porquê dos nossos problemas. Seguem alguns pontos sobre o que ele diz:
  • Os pensamentos são histórias que a mente te conta, não são a realidade, são uma interpretação. A realidade é bem mais simples.
  • "Conversar com a mente" não é mau em si, o problema é que os eventos negativos ou medos são grandes alimentos para a mente, e ela mete-se a divagar interminavelmente e a criar cenários onde tudo corre mal.
  • A atividade mental contínua é quase sempre negativa; grande parte dos pensamentos são fúteis e têm uma natureza destrutiva.
  • Podemos começar por ter consciência disto e da repetição de formas de pensamento que criam emoções derivadas do medo.
  • O corpo não distingue se a emoção vem da realidade (se vem mesmo aí um Leão) ou se o medo é projeção da mente e reage como se estivesse mesmo em perigo.

O que o Eckhart Tolle diz faz muito sentido. Percebi que sempre vivi com medo. De desiludir, de não conseguir, de acontecimentos terríveis, do sofrimento de um familiar, de conflitos com os outros, das coisas não correrem "bem". Assumi então durante anos o típico comportamento de uma pessoa que sofre de ansiedade: gosta da segurança e previsibilidade das rotinas; pouca abertura a novas experiências; preocupada com as consequências dos seus atos; leva a sério as suas obrigações; não quer prejudicar ninguém nem entrar em incumprimento com o combinado; eficiente e organizada, com tudo planeado e com pouca margem para a espontaneidade. Basicamente, o medo era tão grande - sem eu perceber! - que tinha de estar tudo muito bem assegurado, controlado e sem hipótese de criar conflitos com ninguém. Tudo controlado para ter a certeza que nada vai correr mal. Estava muito errada.

Diziam-me que a ansiedade estava relacionada com a preocupação com o passado ou o futuro, que tinha de estar no presente. Eu não tinha realmente percebido o que isso queria dizer... Só percebi nesta fase. Que não controlamos nada, que é preciso um bocadinho mais de fé. Que os pensamentos eram quase sempre "como vou fazer isto", "porque será que aquilo de ontem aconteceu", "como vou lidar com aquela questão", "o que é que devia ter dito" ... Sempre no antes ou no depois, nas preocupações, sempre a ser enganada pela mente, sempre a alimentar o medo com inseguranças e questões.

"A realidade é bem mais simples". Estou aqui, agora, a fazer isto. Está sol (ou chuva). Sinto-me bem. Vejo o que está à minha volta e continuo o que estou a fazer, não há pensamentos, estou só aqui e está tudo bem... que alívio.

Mas rapidamente me esquecia da simplicidade deste momento! Voltava a estar no antes ou no depois, nas preocupações, sempre a ser enganada pela mente, sempre a alimentar o medo com inseguranças e questões.
Então comecei a aperceber-me disto, para começar. Diariamente, repetidamente, a reparar nos meus pensamentos. Principalmente quando tinha palpitações, lembrava-me:

Se é real, não pode ser ameaçado. Se não é real, não existe.
Esta é a frase mais importante de todas.
"Nothing real can be threatened. Nothing unreal exists. Herein lies the peace of God."

O que está mesmo a acontecer, neste momento, com a minha pessoa, é o que tem de ser. Qualquer pessoa com um bocadinho de fé consegue - acho eu - assimilar esta ideia. Temos de confiar e entregar à providência divina. O que quer que seja que nos aconteça, podemos aprender a lidar com isso. Até a morte não deve ser algo tão mau como todo o medo que às vezes se tem dela... Então, o que é real não pode ser ameaçado, está tudo certo! Tudo o resto... não existe!, é uma infinita invenção da nossa mente!

Principalmente quando tinha palpitações, lembrava-me:
Se é real, não pode ser ameaçado. Se não é real, não existe.

E dizia isto repetidamente, a respirar pela barriga, enquanto tentava aperceber-me do ar que entra e sai, do sangue a correr nas veias, daquilo que é real, para poder voltar ao presente. A ideia é expulsar os pensamentos. A seguir fazia os exercícios de aterramento (grounding) que me ensinaram: imaginar 5 coisas que posso ver, 4 que posso cheirar, 3 que posso ouvir, 2 que posso saborear e 1 que posso sentir com as mãos. Depois, reparar num objeto à minha volta, num som que esteja a ouvir e sentir uma parte do corpo. Depois voltar a focar-me na respiração, neste organismo que está vivo, repetindo: Se é real, não pode ser ameaçado. Se não é real, não existe.

Fiz isto várias vezes. Ouvi vezes sem conta o Eckhart Tolle - e continuo a ouvir. Esta frase continua a estar presente no meu dia a dia. Deixei de ter palpitações.

Também deixei de seguir tudo o que se passa no mundo. Contribuo mais ao estar bem, do que ao seguir os acontecimentos atuais. Se se confirmar a ideia da precessão dos equinócios e de que estamos realmente a vivenciar uma transição de energia no planeta, na qual toda a corrupção e maldade está a vir ao de cima para poder ser dissolvida, prefiro tentar meter-me já no lado dos humanos felizes! Sabemos que os media são manipulados e a verdade é que todos os dias nos querem dar razões para ter medo! Notícias do dia: hoje é para ter medo disto; Notícias do dia: Hoje é isto que está a acontecer, podes ter medo, afinal também te pode acontecer a ti! Então... passei a selecionar muito bem a qualidade e quantidade de informação que consumo. O que é que contribui mais para a minha alegria, bem estar e vontade de criar?

O trabalho tem de ser contínuo, continuo a reparar quando entro em preocupações: interrompo esses pensamentos e apercebo-me do que está à minha volta nesse momento. "Desleixo-me" muito mais. Faço tudo mais devagar. Faço mais coisas que me divertem. Libertei-me de uma certa obrigação que parecia existir. Comecei a deixar tarefas a meio - se não me apetecer e se puder, acabo depois. Se me apetecer de repente ir ali fazer alguma coisa tonta, vou. Já não me esforço para agradar os outros, mas acho que os ajudo mais ao estar disponível. 


Hoje em dia já não tenho sintomas, já não tomo suplementos, nem sequer valeriana, só pastilhas elásticas. Às vezes fico tonta - em momentos com público ou em que estou mais vulnerável, sem problemas retiro-me, bebo água, distraio-me e passa. Se as pessoas ficarem à espera, paciência. Se acharem que falhei, azar. Faço tudo com muita calma e se for preciso a seguir ainda vou mais devagar! Cumpro muito bem as tarefas que são realmente da minha competência fazer.


Como disse no início,
A boa notícia é que somos capazes de nos curar disto, mas vamos ter de trabalhar para isso.
Foi trabalhoso, sim, e o trabalho continua. Não sei como vai ser no futuro - nem vou pensar nisso - mas sei que tenho a ferramenta que preciso para trabalhar e aprender a lidar com o que vier.

Espero sinceramente que este texto possa ser útil para ti. 
Em baixo segue um link para o vídeo altamente recomendado do Eckhart Tolle "Break Free From Anxiety and Fear"
Se carregares em "cc" aparecem as legendas, e nas definições até dá para meter as legendas em Português.